mastiguei a expressão proibida
pensando que bom
que estou sóbria 
e que trágico 
que algo tão nobre, pra ti,
se vista de exigência 

salpiquei de beijos as tuas sardas
nos ombros 
achei que seria o suficiente
para você perceber 

não se beija assim 
com tanto cuidado e deferência 
as sardas
nos ombros
de alguém

provavelmente já sabia, sim
e fingia que não para se manter
em segurança 
era óbvio para qualquer um
que me olhasse ao teu redor, óbvio
como o que não carece de ser dito,
mas continuamente é,
por trás dos lábios 
que se sepultam em carícias 
por toda a extensão do teu rosto

comove-me o menor dos gestos 
que comunique uma nascente morna de afeto

havia música estridente
mas a casa calou enquanto
eu te contemplava absorvido
precisava
lamber teu suor fino levemente salgado 
precisava beijar solenemente 
centímetros impopulares de ti
precisava me sublimar 
na tua sombra

precisava estar descalça 
sobre teu chão
e acariciar tua cachorra
que já não me estranha 

e ao mesmo tempo, transparecer
que só adormeço entre teus lençois 
por conveniência e até 
casualidade

quando amanhecia, 
eu te escalei 
rarefeita
e movi o corpo
aqui e ali em você 
com uma destreza irreconhecível 
como aquilo que encontra
o próprio devir

suprema ao baixo ventre,
tua expressão inédita 
penetrava
– você sempre enfia o rosto
entre meu cabelo,
mas não hoje –
derreti 
demoradamente 
como jamais 
porque você encarava
eu me converter em lava.
desabei moída sobre ti, 
mas nova em folha
e o orvalho escapando pelas coxas
e nossos peitos como ondas
tentando recuperar o fôlego 

já estava claro
mas era cedo demais 
para pronunciar 
devo esperar o sol se pôr mais algumas vezes
e talvez, antes que ele o faça no leste,
eu te confesse

e você aquiesça
como o que não é 
um completo absurdo.

mas por enquanto não surgirei 
na tua mente ao meio-dia
nem me farei comum à tua cozinha
não decorarei a ordem dos seus livros 
na cabeceira
ou qual o estado das suas meias 
como você age ao telefone 
a maneira como você beija sua mãe aos domingos 
ou quão concentrado é seu cenho 
durante o trabalho

ambos respirando furiosamente 
e eu afagando suas costas 
como quem conforta uma criança cansada,
travessa –
apenas neste momento
foi-me a vida inteira

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