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anatomia de um ataque de pânico

Trancada. A chave por dentro. Do outro lado da porta eu escuto cada fonema que me prova minha derrota. Fragmas dos vídeos que há pouco mais de meia hora exibiam outra de mim às gargalhadas e piadas estúpidas. No intuito de mascarar. De mentir o que já brotara desde cedo.  Há alguém encostado na porta, uma voz que deveria acalentar, mas eu não sei. Não sei mais sobre amigos conhecidos estranhos ameaças. A música chega até aqui e eu odeio. Odeio não poder esticar as pernas. Odeio não inspirar o suficiente, o ar ricocheteando vago. Quero ir embora, desabar em casa, mas não consigo passar pelas pessoas na sala, conversando, rindo, comemorando. Tampo os ouvidos com mais força do que deveria mas os sons ainda perfuram.  Isso já me aconteceu? Acho que nunca aconteceu. Ou talvez não assim. Ou talvez todas as vezes que se manifesta seja tão diferente e colossal que pareça único ...

Eu vou ficar bem

Você demonstra se preocupar comigo e insiste que preciso conhecer novas pessoas. Antes mesmo de te ouvir terminar a frase, meu coração dispara encurralado e prevejo alguma intenção sórdida por trás dessa suposta preocupação. Você me acha dependente emocional e não quer que eu construa esse tipo de elo contigo; você forja se importar com minha inabilidade social para enfim poder se livrar da minha companhia pesada e meus assuntos melancólicos. Outra vez eu sou esse pólo negativo que repele as pessoas, um fardo imenso até para aqueles que juraram não se assustar - como você, no início. As pessoas costumam me garantir que é um problema a ser lidado e que não sairão correndo quando minha voz sumir e meus olhos tentarem mergulhar no globo. E então elas me descobrem e passam a dar desculpas e se esquivar ate mesmo das minhas investidas nos dias mais tranquilos. A verdade é que p...

mama

hoje não poderia ser outra noite Lambert foi enfim libertado das correntes de borboletas - e eu consegui chorar. sofri um acidente trágico despercebido. fiquei com sequelas graves que olho nu não alcança. se eu pudesse ao menos me inundar de sangue, vísceras frescas e hematomas , eu disse, abafada em seu peito, poderiam supor de repente, volto para onde penso que nunca deixei não percebo o caminho e o que parecia melhora foi apenas torpor. alprazolans em fila  brincam com os relógios e o tempo tem um pouco mais de mim eu cresci demais e agora não caibo mais em casa mamãe tenta abarcar mas um colo não é um ventre percebo que assusta tanta dor apenas dor e não raiva ou revolta então, mamãe se desculpa  por ter sido ausente ela ainda acha que poderia ter impedido nunca se está lá  o bastante quando homens chegam - sempre vêm pra ficar mesmo depois que nos aband...

superlativa

a condição é passividade. a lei é agonizar sem barulho. sem cena sem drama. eu ainda era quase criança à primeira vez que depilei as pernas e foi sempre quase criança que era forçada a deixar de ser. aos sete, descobri que a repreensão  recairia sobre quem usava a saia ao invés de sobre quem se esforçava para espiar o entremeio das coxas antes mesmo do estirão, marcas de quedas e pancadas, calcinhas estampadas de algodão... desde então não amarro os cadarços de qualquer maneira. calculadamente me abaixo, num cantinho estratégico e encolhendo os quadris - toda sutileza para não provocar as bestas. toda atenção para não cometer o pecado  de deixar juntar as sobrancelhas  ou usar apenas uma blusa quando o tecido passa a revelar as mamas apontando entre a gordura - mas a condição é  passividade. relevar os comentários ...

arquitetura

quarto comum, classe media. cama box solteiro. escrivaninha de vidro.  armário embutido. criado mudo. mudo. mas não vejo nada disso. apartamento, um corredor estreito adulta ainda odeio enfrentá-lo na penumbra caço formas, o grito já a postos  insisto que ouvi meu nome n'alguma fresta por onde o ar sopra escadas eu posso escoar por elas subindo e descendo posso sentar e chorar salgando os degraus as grades do portão - nada pelo que avançar rua adiante as esquinas não são meras esquinas  eu as olho  e vejo pessoas que nunca mais olhei. que nunca mais enrolaram os dedos na grade do portão esperando que eu o abrisse, sorridente, saltando os degraus  nunca mais os subiram comigo adiantando conversas de assunto-nenhum ansiando pelo quarto comum a cama box solteiro que eu arrumei (eu sempre arquitetando como abraçar meu mundo com as pernas) pra caberem dois alguéns  c...

PROLEGÔMENOS DA LINGUAGEM

Era uma mulherzinha vil; mas antes de ser vil, era uma coitada de si mesma - e de todos os aparatos odiosos sobre os quais foi construído nosso mundo. Aos dezessete uma ideia fixa e obsessora passou a povoar-lhe a cabeça: seria escritora. Sim, dezessete, os anos das paisagens mais acidentadas e quereres austeros. E foi com essa voracidade do mancebo que a moça se auto intitulou escritora, pensando que do ofício se esbanjava glamour e viço, ainda que quando na imitação da vagabundagem de uma boemia. Bastava fingir, dizia internamente como um norte. E forjando citou os cânones. Rimou o amor. Fez-se tristíssima, um luto só, fã do fado - e tanto forçou que já quase cria em si. Buscou nas prateleiras das papelarias os cadernos mais cheios de graça pra guardar seus verbos. caçava interminavelmente os assuntos, remexendo hipóteses, ornamentando métricas, elaborando enredos contaminados de escolas frances...