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anatomia de um ataque de pânico

Trancada. A chave por dentro. Do outro lado da porta eu escuto cada fonema que me prova minha derrota. Fragmas dos vídeos que há pouco mais de meia hora exibiam outra de mim às gargalhadas e piadas estúpidas. No intuito de mascarar. De mentir o que já brotara desde cedo.  Há alguém encostado na porta, uma voz que deveria acalentar, mas eu não sei. Não sei mais sobre amigos conhecidos estranhos ameaças. A música chega até aqui e eu odeio. Odeio não poder esticar as pernas. Odeio não inspirar o suficiente, o ar ricocheteando vago. Quero ir embora, desabar em casa, mas não consigo passar pelas pessoas na sala, conversando, rindo, comemorando. Tampo os ouvidos com mais força do que deveria mas os sons ainda perfuram.  Isso já me aconteceu? Acho que nunca aconteceu. Ou talvez não assim. Ou talvez todas as vezes que se manifesta seja tão diferente e colossal que pareça único ...

epitáfios

ele limpava o suor do copo com o indicador, absorto noutras coordenadas, e o assunto surgiu - estava lá novamente, estava lá ainda , e eu hesitei um mínimo. é difícil , eu disse. na falta de uma palavra maior, é difícil. difícil pra buceta , na presença de um superlativo. então ele bateu em retirada como os últimos caras com quem eu me arrisquei a sair. não faz sentido , um outro falou, um lado da boca esboçando um sorriso irônico, você que não sabe escolher , nem todos são assim. eu não sou, continuou, ultrapassando o limite de velocidade do carro e avançando sinais vermelhos. é do que eu gosto, concluiu . adrenalina. guardei essa palavra. adrenalina. você não poderia entender,  porque nunca está no banco do passageiro , respondi. não faz sentido, repetiu rindo roubando a preferencial e gritando vagabunda a motorista do carro que freou brusc...

superlativa

a condição é passividade. a lei é agonizar sem barulho. sem cena sem drama. eu ainda era quase criança à primeira vez que depilei as pernas e foi sempre quase criança que era forçada a deixar de ser. aos sete, descobri que a repreensão  recairia sobre quem usava a saia ao invés de sobre quem se esforçava para espiar o entremeio das coxas antes mesmo do estirão, marcas de quedas e pancadas, calcinhas estampadas de algodão... desde então não amarro os cadarços de qualquer maneira. calculadamente me abaixo, num cantinho estratégico e encolhendo os quadris - toda sutileza para não provocar as bestas. toda atenção para não cometer o pecado  de deixar juntar as sobrancelhas  ou usar apenas uma blusa quando o tecido passa a revelar as mamas apontando entre a gordura - mas a condição é  passividade. relevar os comentários ...

arquitetura

quarto comum, classe media. cama box solteiro. escrivaninha de vidro.  armário embutido. criado mudo. mudo. mas não vejo nada disso. apartamento, um corredor estreito adulta ainda odeio enfrentá-lo na penumbra caço formas, o grito já a postos  insisto que ouvi meu nome n'alguma fresta por onde o ar sopra escadas eu posso escoar por elas subindo e descendo posso sentar e chorar salgando os degraus as grades do portão - nada pelo que avançar rua adiante as esquinas não são meras esquinas  eu as olho  e vejo pessoas que nunca mais olhei. que nunca mais enrolaram os dedos na grade do portão esperando que eu o abrisse, sorridente, saltando os degraus  nunca mais os subiram comigo adiantando conversas de assunto-nenhum ansiando pelo quarto comum a cama box solteiro que eu arrumei (eu sempre arquitetando como abraçar meu mundo com as pernas) pra caberem dois alguéns  c...