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horror vacui

o estupro tomou meu corpo e hoje sou uma inquilina um parasita frágil me mantendo viva através das sensações neblinadas  e da supressão de memórias o estupro se apropriou da massa deformada (e não há nada mais nojento do que um corpo que se escorre) da pele que se estende com repulsa (e a ela abro porque não há mais o que possa ser aberto) e a erogeneidade encerrada em caixões de chumbo  resvala mais funda que qualquer vítima de radiação  é de uma dormência ardida em que — mesmo ao encontro da gentileza de uma língua  contraio seca. expulso espasmada como subserviente à ferida antiga que a fisiologia garante cicatrizada. tardei entrar em contato até que  as convulsões de uma febre anômica   se embrenhassem em cada ponto ensimesmado ramificando em capilares  toda a recordação encarnada  à prova de verbo e recusa tardei. agora o crime é o que preenche ao tomar matéria e novas habilidades  fazendo meu corpo ...

[o estupro não se basta]

o estupro não se basta  como um ato passível de fim quando terminado. continua depois desse homem satisfeito, depois de limpa e amolecida  a arma biológica. continua  depois que se emudece e cansa de tanto espasmo esse manequim flácido  incrédulo — mas também inacreditável  pasmo o estupro é além e após —  o que é isso esse mais-que-embargo  de uma tez de embaço  sem nome no dicionário  continua  depois que some o sangue e se fecha a ferida anatômica. continua depois de confesso depois do passado, insistindo  em não virar antigo. não cessa no assalto. sina de símbolos aquém do cognoscível em que o corpo hiper-atento  alarma a qualquer trisco  mudas daninhas  de um  sensível encardo que não alcança transdução  (típica cardina daquilo que não pode ser extirpado) — e sete anos após  eu ainda não sei onde limpar — é uma memória que não vêm à lembrança...

força bruta

a verdade entrevista pelas córneas converge desapercebida e por fim refrata nas más intenções  das quais está cheio o paraíso. se é tão óbvia inflamação psíquica  a ponto de se tornar piada; se o vício é um paliativo  que por horas frágeis (e alguma hipomania)  desfoca da melancolia se tropeço nos dedos e apenas por caridade interpretativa clamo uma frase coerente você ainda me conduziria  a esse rol vazio  combinados breu e azulejo frio e entoaria então o passe livre  do sexo casual e do melhor amigo? (casual é também o perigo)  o habitual despacho num táxi de madrugada  e quando eu piscasse  devagar o bastante enquanto você fingia  o mesmo ritmo seria divertido quando esse convidado subitamente despontasse por trás do teu riso? foi ainda divertido quando meu sangue  não impediu teus gemidos? “isso deve funcionar” basta me culpar por estar ao alcance. o habitual despacho num tá...

o estupro te ressignifica os sujeitos e predicados,

o estupro  te ressignifica os sujeitos e predicados demasiado mórbida e imperiosamente. à primeira vez - aos 15 - me fez, antes de qualquer interpretação consistente,  encarar as outras de 15 como nada mais que crianças   esticadas . eu não tinha nem peitos para serem mastigados. (mas o sangue como sempre possível  tornava cada mancha na colcha seu troféu particular) estupradores são bem diferentes dos retratos - estes que perduram arquétipos negligentes. são eles, os tais monstros - gentes também.  não aberrações de presas às vistas. e é comum até mesmo  que nós os amemos  até que compreendamos o multifatorial que configura o crime - não culpa ou dever, não um lacre rompido sem permissão ou um apalpar que surge vadio, mas como uma existência que subitamente se racha em algum ponto difuso  e você só tem ideia da espessura e profundidade,  e do quanto não alcança o chão,  até que o sangue verta generoso (a ...