antes que eu conheça essa noite
tarde demais para ainda ser noite, saltei a janela pela primeira vez em 10 anos. meus músculos desaprenderam essa mecânica do socorro ignorei a vertigem verde e sentei no escuro, assentei o terror na banalidade. o terror que anda junto como um cão negro. como um cérbero famélico e leal em suas três cabeças. no breu absoluto onipresente, onde deus não enxerga suas palmas, esqueci que o temia. nele, onde tudo que é luz não passa de sua ausência. pensei ter ouvido sussurros dos demônios por detrás das vigas. pensei ter ouvido você cantar uma melodia de criança da lua, como um rei carmesim. — isso acontece o tempo todo pensei ter ouvido você chorar, mas você não chora. sob o assoalho úmido de um poço, percebi que passaram as décadas sabáticas. percebi também que não me resta a segurança que é temer demônios alvos como todo mundo, demônios que me tateiam no sono e sentam sob meu peito chamuscado. e o odor de incinerada carne só mais um detalhe. saudosa de palpitar sob...