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antes que eu conheça essa noite

tarde demais para ainda ser noite, saltei a janela pela primeira vez em 10 anos. meus músculos desaprenderam essa mecânica do socorro  ignorei a vertigem verde e sentei no escuro, assentei o terror na banalidade. o terror que anda junto como um cão negro. como um cérbero famélico e leal em suas três cabeças. no breu absoluto onipresente, onde deus não enxerga suas palmas, esqueci que o temia. nele, onde tudo que é luz não passa de sua ausência. pensei ter ouvido sussurros dos demônios por detrás das vigas. pensei ter ouvido você cantar uma melodia de criança da lua, como um rei carmesim.  — isso acontece o tempo todo  pensei ter ouvido você chorar, mas você não chora. sob o assoalho úmido de um poço, percebi que passaram as décadas sabáticas. percebi também que não me resta a segurança que é temer demônios alvos como todo mundo, demônios que me tateiam no sono e sentam sob meu peito chamuscado.  e o odor de incinerada carne só mais um detalhe. saudosa de palpitar sob...

[esse corpo]

esse corpo: de pronome demonstrativo do alheio — ativo no nojo. esse corpo, que não quero à noite, à mostra, às vistas públicas vandalizado circunscrito ao vilipêndio coisa pública sem lei, terreno inóspito cuja vida não se cria corruptela aos ciclos de crescimento organismo falido em declínio cavalgante escravo espelhado do impulso pré-reflexivo e expulso das causas naturais esse corpo causa mortis tardia nu em pureza tenha talvez primeiro sido ou já tenha sido embrião fincado de espinhas esse corpo parido como eu nunca foi meu. esse corpo partido esse corpo exilado esse corpo expatriado foi feudo da escassez e logo do diagnóstico, prensado em consultórios,  termos técnicos e procedimentos de correção e higiene desde sempre um caso errado a ser otimizado em esteira fordista do que é produzido ao que seria aceitável esse corpo cedo foi de homens e suas algemas emocionais,  quando uma coleira me foi encarnada à garganta e a boca  se cansou da palavra e até do grito po...

...como trama da comunicação

  de interdiscursos e dialogismo constitutivo, como mais de dois espaços ao mesmo tempo espessos enunciados que não se encerram  quando materialmente  terminados. a mão que pontua é a mesma  que me circunflexa a garganta da proclamada intenção de findar toda a existência consciente ainda desperto. e eis que levanto, feito bicho atropelado na rodovia. descalça, ensaio a marcha fúnebre até o reflexo e cravo as unhas na pele canela, lavo o rosto feito inteiro de desgosto, engulo aos montes alguns pães (deveria me alimentar melhor) bocejo enquanto a omoplata esquerda lateja (deveria alinhar a espinha) acesso de tosse e arranham espinhos (deveria largar a nicotina) lavo a tal orquídea única violada e sem música, até inchá-la (deveria metê-la em soda cáustica) do subsolo, assisto o progresso dos homens de mérito em seu cotidiano tipificado ignorantes de seus privilégios de nascerem já passos à frente do subsolo, assisto o jogo natural dos quadris das mulheres que possuem ...

pena capital

é que você não me deixa escolha eu queria terminar esse livro mas leio lento porque a cada verso, me surge uma estrofe como se cada um me inoculasse seus filhos bastardos fios em rede — se me embalo ou me enforco apenas tardo. mas você não me deixa escolha cada manhã mais uma e uma outra trouxa de interdições os acasos surgindo como filhotes de aranha eclodindo dos menores ovos como colchetes dentro de parênteses parênteses atrapalhando parágrafos trechos em obra, e eu que deveria dar a volta encontro o retorno proibido teço uma narrativa suspensa órfã de tema ou título os travessões em malabarismos em busca de qualquer "portanto" definido sabe, eu queria montar numa bicicleta à noite e visitar as ruas pavimentadas e seguras de asfalto retocado que não tenho dinheiro para habitar sabendo que existe um endereço certo sentar na areia com shorts curtos que exibam, sim, as manchas atópicas e minhas largas e brutas formas de um corpo cria de grande porte do abuso que ladra tanto q...

o nó que segura a mão

sim, eu ando distante de tudo que é isso. tentando não usar termos imprecisos como isso ou aquilo tenho buscado não falar exatamente como estou falando mas ao mesmo tempo tenho me tornado palavras soltas sem marcas, indicações precárias de uma outra mulher ímpar e vibrante, que não admitia tombar no discurso como  essa ou aquela ou ultrajada em diminutivos  sim, eu tenho sido eufemista  rompido contratos com os outros frágeis fios do eu cedendo ao valor de feminina que postula modéstia e economia às quais outrora esbravejei escar(céus)  na via oposta e venho comendo os restos dos pratos servidos a homens já satisfeitos eu tenho fumado como um  velho homem, velho elenco assim sentado na varanda os lamentos como sombras atômicas agora que o ninho se foi e a hora se foi e o sexo se foi, depois, também eu tenho ido, em círculos, em busca das burocracias e documentos imprescindíveis para atestar que eu respondo por pessoa física a uma pergunta jamais articulada e to...

horror vacui

o estupro tomou meu corpo e hoje sou uma inquilina um parasita frágil me mantendo viva através das sensações neblinadas  e da supressão de memórias o estupro se apropriou da massa deformada (e não há nada mais nojento do que um corpo que se escorre) da pele que se estende com repulsa (e a ela abro porque não há mais o que possa ser aberto) e a erogeneidade encerrada em caixões de chumbo  resvala mais funda que qualquer vítima de radiação  é de uma dormência ardida em que — mesmo ao encontro da gentileza de uma língua  contraio seca. expulso espasmada como subserviente à ferida antiga que a fisiologia garante cicatrizada. tardei entrar em contato até que  as convulsões de uma febre anômica   se embrenhassem em cada ponto ensimesmado ramificando em capilares  toda a recordação encarnada  à prova de verbo e recusa tardei. agora o crime é o que preenche ao tomar matéria e novas habilidades  fazendo meu corpo ...

enredo antigo sob o sol

sim, amor. você, a quem assim vocativo (brega e ridícula como todas as submetidas) vai também, vai tambem- uma outra vez tal qual todas  se agarrar à média.  você, amor, vai delicadamente descarnar minha fé   reinventando as acepções pluralistas e mais exóticas  da traição  entre fiel e leal, há uma infinita bulevar e enquanto você assume o primeiro como espécie de privatização  repele da consciência  que o compromisso é órfão de promessa que os gestos trocados não pressupõem segredos e que as juras as juras- não admitem contrato mês a mês, eu me debato  vis a vis implicada em não sumir do teu afeto raso   e dou a cara- ao tapa mas também ao afago e à carícia  pra balancear  tua omissão porque, pra você, entre mentira e omissão  também há uma infinita (mas fajuta) bulevar relativizando a estória histórica  e minha ferida que esgarça pungente bramindo a arrogância do seu confor...