foi um decreto que amassou meus órgãos. as Criaturas puxaram as cortinas sobre as nuvens ganindo esquartejadas com seus olhos na Morte -- regozijadas por serem atendidas nem era Noite ainda quando. não era Escuro o bastante para tatear minha mão, mas assim o fez mais assustadoras são as manhãs, com seu despertar automático da Angústia e a rotina ditada pelos seus chicotes. Angústia que, em Novembro, o Sol só a mim não alcance embora os Horários permaneçam na exigência de serem cumpridos e você, fiel a eles, agraciado pela sólita Luz, prestes a -- que a rotina nos consuma até que partamos, aos poucos, sem nada dizer. que nem mesmo choremos e de propósito esqueçamos o que significa esse sofrimento. que eu enrubesça nos cantos ao mero discurso indireto da tua silhueta que seja, afinal, sobre falhas na minha condução ou, pior ainda, trate-se de um ordinário acaso em que justifiquemos tarde que a culpa foi da vida, da l...
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Mostrando postagens de 2023
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já desfilei despenhadeiros, possessa bem parida numa euforia esguia que me alumiava o semblante, eu tinha incansáveis olhos e vencia as quedas de braço com as noites e ainda que não soubesse aonde ir, continuava indo. eu me pendurei em estranhos achando que neles havia algo a ser percebido e descoberto. julguei um milhão de vezes que o amor era aquilo que eu não estava vendo. e me apeguei às imagens distópicas dessa miopia, enquanto ainda era enérgica e disposta aos ferimentos. não havia perigo nas esquinas, eu inspirava até o fim dos alvéolos mas agora eu mal posso suportar minha imagem pública. nada me convence que esse corpo não merece meu casto e honesto ódio o ódio que se re-nutre pelos inimigos, por criminosos hediondos, por aquele que te abandona e desfaz os sonhos, agora meus músculos são fibras frouxas, meus olhos opacos quedam as pálpebras e me constranjo ao ser vista e visitada. agora fico ao léu das avenidas algo de mim permaneceu lá atrás, irrecuperável e...
e tenho esse olhar de mil jardas
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de repente, os estímulos empalidecem. eu posso ouvir o roçagar de seu pesado manto negro. permite que o grande cão a guie, chocando, vilíssima, as correntes que o contêm. e, por sob o capuz, não há feição alguma. de repente não me recordo por que aquilo me fizera sorrir noutra manhã. os comichões de velórios passados são agora como uma colônia de saúvas. eu ensaiei esse ato e tenho prontos cada um dos diálogos é minha caligrafia ali, mas não parece ter sido eu que os escrevi. como se, não alfabetizada, houvesse sido forçada a desenhar cuidadosamente as letras para me coagir. eu já estive aqui um milhão de vezes e mesmo assim o solo parece intacto. eu posso ouvir seus murmúrios e embora saiba que podem não ser verdades, são insuportavelmente reais suas pronúncias. seu conteúdo faz sentido num ímpeto, a modo de eureka. eu sei que ela está aqui, agora, respirando pesarosamente no vértice deste quarto, imóvel, e que move seus dedos como quem toca um piano imaginário...
[semeasse cadáveres diminutos,]
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semeasse cadáveres diminutos, pequenos grãos abortados e também pétalas amarrotadas que murcham em marcha, massas indecifráveis de natureza morta intransplantáveis para uma tela qualquer que seja pois não existem tons tão rotos semeasse esporos de ódios, embriões do horror noctivo, dessas espécies que vagueiam contra o sol, às avessas da luz, é esse instante em que o segundo adiante é sepultado ainda em curso, antes que se faça escuro não vingam narrativas paralelas a essa jaula verborrágica onde ervas daninhas, delgadas como fios de cabelo se enroscam entre as grades, arasse o solo com sangue grosso dormido, guardado a fermentar seus figurados e desse de comer às suas covas irregulares frutas pútridas, suas filhas pródigas com o pecado primeiro talhado nos caules e liames descendentes, com suas nervuras indóceis -- ranhuras que não pertencem, a priori, às estações esculpidas todas no mais puro surto maníaco,...
exijo desse corpo
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exijo desse corpo que ele faça jus a um funcionamento neurotípico e o comparo com mulheres magras e limpas de dedos compridos e finos, tilintando anéis, de pés alvos de unhas à francesa de colo delicado com adornos dourados de estrutura óssea delgada e leve e seus cabelos e dentes e cílios criados em laboratório mulheres cujos ossos se projetam deliciosamente em determinados movimentos como exibindo o atestado de bom trabalho e pensando assim parece que eu fracasso na missão que parece a única inerente às fêmeas de entregar a beleza normatizada como um escambo para a atividade ultrarromântica eu ajo injustamente e o sei, mas não deixo de fazê-lo, porque ultrapassa minha volição já que lá fora existe uma cobrança malignamente implícita fantasiada de criação autônoma de mentes histéricas sobre um corpo que, rigorosamente, transpareça sua colonização que corresponda às expectativas de homens anônimos, mas não apenas, m...
ao meu ex-terapeuta
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aninhar de volta a farpa que você remexeu uma vez já implantada e fez arder de novo transformando o relevo em ferida exposta, auto-imune contemplar meu flanco coberto de penas e saber que embora tenham nascidos prontos os outros minha forma não é aerodinâmica por pouco mais que um gênero e uma cor não somos um mesmo -- e também sofre o terror das alturas pensando em si como refém das performances rasteiras estranha banalidade alheia é um pé frente ao outro 300 e tantos dias de incisões sangrando em uníssono e após um hiato -- "eu", pausa, "acho que te amo" "e por isso", você continua, "não posso mais ver você são aspas que jamais se dão por encerradas e um verso suspenso planando denso e almíscar como assim seria se-- "eu não tenho pacientes, eu ajudo pessoas criativas" mas te pergunto, o que diabos posso eu criar com isso? contestar o ofício irremediável dos espinhos tolerar o mal-estar fundamental e acolher que há de se ter orgulh...
[não, nada de nomes difíceis, termos gringos,]
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não, nada de nomes difíceis, termos gringos, versando sobre fronteiras bem delimitadas entre a sanidade e a loucura. nada de discurso pseudocientífico sobre esse limbo entre neurose e psicose. assim talvez você não me apelide usando uma semiologia técnica como adjetivo, não acuse entrelinhas a totalidade da minha personalidade como indesejada e doente, "doente" -- esse status fixo irrefutável e não um processo, mas essa carga elíptica de invalidez. talvez assim você não resgate os leprosários medievais buscando poupar o que é público dos meus rompantes, não se sinta tão à vontade para usar de expressões que ridicularizam um padrão cognitivo e aprenda que os extremos não passam de ficções convencionais. espero que quando você mencionar que reajo como uma criança, lembre que o que faz o comportamento dito infantil não é uma escolha deliberada sobre sê-lo, mas a escassez de arquitetura biológica e experiências significativas que maturem-no, e que ofereçam subterfúgios para progr...