exijo desse corpo

exijo desse corpo que ele faça jus

a um funcionamento neurotípico


e o comparo com mulheres magras e limpas
de dedos compridos e finos, tilintando anéis,
de pés alvos de unhas à francesa 
de colo delicado com adornos dourados 
de estrutura óssea delgada e leve
e seus cabelos e dentes e cílios criados em laboratório  

mulheres cujos ossos se projetam deliciosamente 
em determinados movimentos como exibindo 
o atestado de bom trabalho

e pensando assim parece que eu fracasso na missão 
que parece a única inerente às fêmeas 
de entregar a beleza normatizada como um escambo
para a atividade ultrarromântica 

eu ajo injustamente e o sei, mas não deixo de fazê-lo, porque ultrapassa minha volição 
já que lá fora existe uma cobrança malignamente implícita fantasiada 
de criação autônoma de mentes histéricas
sobre um corpo que, rigorosamente, transpareça sua colonização 
que corresponda às expectativas de homens anônimos, mas não apenas,
mas também de mulheres cuja doutrinação tirana proclama que  
minha falha na mesma tarefa destinada a elas significa seu sucesso
embora ambas soframos a pressão nos nossos ventres ventríloquos

então eu puno meu corpo por não responder a ideais propositalmente adoecedores
-- pois é mais fácil nos controlar através da implantação da vulnerabilidade --
eu puno meu corpo por ele não atuar fisiologicamente como um corpo que não enfrenta os mesmos obstáculos e condições 
e espero a performance delirante de uma mulher imune à própria biografia.

eu cobro dessa mulher 
aparatos estéticos, acadêmicos, financeiros,
independentes a si mesma e ainda
que se mantenha sempre calma e diplomática
diante disso. 
 
exijo desse corpo que ele faça seu trabalho
e defino arrogantemente qual e como trabalho seria esse
rejeito suas tentativas de acertar as contas com o presente
e o obrigo a erguer-se invariável todas as manhãs 
reter suas tensões em prol de produtividade arbitrária 
socializar com estranhos permitindo que eles lhe toquem irresponsavelmente 
ser agradável e mansa para com os outros -- mas perseverar uma megera consigo 
ignorar toda a cacofonia interna e entregar o que lhe foi pedido
o suficiente para pagar as contas
sem esquecer dos deveres da feminilidade 
e receber, dos outros, externos e alheios, uma aprovação  
sobre eu gabaritar os protocolos de, enfim,
"estar bem"

continuo 
exigindo um destino incongruente com o percurso
calando ostensiva tudo que vem espontâneo à matéria, e desconhecendo
aquilo que se fez esforço, contra-controle e micro-conquistas
cumprindo convenções instituídas 
por quem sobreviverá à minha morte, e jamais conhecerá meu nome,

pois exijo desse corpo 
que ele se atire
aos pés de seu carrasco

Postagens mais visitadas deste blog

caio,

red flags

18 de junho