verdades realmente pequenas que gostaria de ter sabido antes.
eu te amo.
e isso não é nada.
isso não basta.
não significa merda nenhuma.
e não é porquê você é um sujeito escroto. que não merece. que me destruiu os modos.
é porquê é o que é mesmo.
um telefonema que nunca se recebe.
esbarroes horríveis e hangover.
meu maldito choro inaudível. inadiável.
essa ausência em coro no corpo.
saudade.
é preciso matar a ideia do amor romântico.
o amor que tudo pode tudo suporta
o amor que supera e altera paradigmas
o amor super ego o amor eterno
o amor etéreo
não pode não.
é mais comum duas pessoas se amarem ao absurdo e nunca ficarem juntas.
porque o amor não é essa coisa criada pela mágica que faz dar certo.
não faz nao.
não faz nada. ele ama, eu amo, sei que você também. é tudo isso que vira zero.
amar alguém não destitui vocês dos problemas que existem.
não te enche de grana, não te emprega, não te cura.
não preenche a falta crônica
e nem é pra fazê-lo.
chega de esperar que alguém te restitua as mágoas, os traumas, os medos.
mesmo que o amor seja maior que a mágoa o trauma o medo
maior mesmo que a PESTE
maior que eu ou você ou ele e todos
maior que a morte ou a vontade dela.
são por amor tantos suicídios.
são puro amor tantos deles.
porque não dá pra compreender que nossa única esperança não nos seja possível.
não nos imbua de poderes.
não nos junte as peças.
nem nos traga esse alguém.
quem você ama não tem de ser nada
que você queira espere ou precise
não tem nem mesmo de te fazer feliz
não tem responsabilidade nenhuma sobre você seu destino seu direito ou sua vida
ninguém tem de atuar por voce em nenhum nível.
o que você sente é seu.
depois que sai de ti fica no mundo
pairando denso
sem direção, revolta entre seus rins.
existe. e pronto.
não tem tribunal. justiça. culpa. natureza.
não tem vilania, todo mundo se sente um bocado vítima e gostaria
de nunca ter tocado no assunto.
eu gostaria de nunca ter tocado em voce.
e quando hoje me estenderam um lenço eu achei tão irônico e bobo.
não entendo os propósitos dos lenços se o que a gente mais gosta e quer é chorar.
deixar escorrer e melar
metaforizando que tá se desintoxicando de algo.
mas é bonito como ainda percebem essa espiritualidade toda numa sensação. sedação. quero dizer, tem de ser mais que fisiológico, olha o tamanho disso.
é uma anestesia dessa crueza toda, eu compreendo.
eu entendo que não entendamos
que não consigamos nem articular
na verdade é o mais comum.
quando me escrevem um texto imenso prosaico, todo bem pontuado paragrafado
sobre as benesses desse amor miraculoso, que em cliche é complicado sim,
eu sempre olho de olho rolando sem querer. e me desculpo mesmo por isso.
deixa o povo amar e acreditar, né, bárbara?
o amor não serve de nada.
não é subserviente a nenhuma função, nenhuma personalidade, nenhum merecimento,
não tem razão, não segue uma ordem lógica,
eu preciso te magoar sobre a terapia, mas ela também não vai te mostrar a real face dele
nem te ensinar os comos e os ondes
é um ponto de interrogação cósmico sustentado no vazio
pulsando como um músculo cardíaco
doendo como uma desgraça cármica.
não tem de ter valor, e por isso mesmo não o tem.
de novo: o amor não serve de nada.
não é fogo, não é fátuo, não é um cão dos diabos, não é uma lenda. não é essência.
mas é voce (ou foi, não sei). sou eu.
não passa disso.
mas foi bonito.
e ainda o é, mesmo que não sejamos mais juntos.