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anatomia de um ataque de pânico

Trancada. A chave por dentro. Do outro lado da porta eu escuto cada fonema que me prova minha derrota. Fragmas dos vídeos que há pouco mais de meia hora exibiam outra de mim às gargalhadas e piadas estúpidas. No intuito de mascarar. De mentir o que já brotara desde cedo.  Há alguém encostado na porta, uma voz que deveria acalentar, mas eu não sei. Não sei mais sobre amigos conhecidos estranhos ameaças. A música chega até aqui e eu odeio. Odeio não poder esticar as pernas. Odeio não inspirar o suficiente, o ar ricocheteando vago. Quero ir embora, desabar em casa, mas não consigo passar pelas pessoas na sala, conversando, rindo, comemorando. Tampo os ouvidos com mais força do que deveria mas os sons ainda perfuram.  Isso já me aconteceu? Acho que nunca aconteceu. Ou talvez não assim. Ou talvez todas as vezes que se manifesta seja tão diferente e colossal que pareça único ...

13 milhões

tentei de novo. o gosto criando a boca. não um abreviar dos anos mas uma mercantilização deles. e o que deveria manter-se no impessoal culminou em química preta - grogue e indinstinta. grogue e indistinta - não sei onde terminam meus membros. tentei de novo; o oposto dos meus esforços diários e agora torno, a cara inchada por explodir, ao meu ponto de partida, 18 anos. mas nada mais tenho que me lembre as promessas por se cumprirem,  o extinto privilégio da dúvida  o tempo a meu favor - meu deus mais próximo, onipotente. dionisíaco. meu amado baco foi nada mais que traído. salto meu próprio esqueleto envergado  prostrado sob a suposta dignidade que confere o trabalho. eu me vendo custe mesmo minha ideia desbotada  desbocada  de alma. e me disponho à mais vagabunda pechincha. levem minha mão de obra,  e o que mais pareça serventia mercadológica. ...

Eu vou ficar bem

Você demonstra se preocupar comigo e insiste que preciso conhecer novas pessoas. Antes mesmo de te ouvir terminar a frase, meu coração dispara encurralado e prevejo alguma intenção sórdida por trás dessa suposta preocupação. Você me acha dependente emocional e não quer que eu construa esse tipo de elo contigo; você forja se importar com minha inabilidade social para enfim poder se livrar da minha companhia pesada e meus assuntos melancólicos. Outra vez eu sou esse pólo negativo que repele as pessoas, um fardo imenso até para aqueles que juraram não se assustar - como você, no início. As pessoas costumam me garantir que é um problema a ser lidado e que não sairão correndo quando minha voz sumir e meus olhos tentarem mergulhar no globo. E então elas me descobrem e passam a dar desculpas e se esquivar ate mesmo das minhas investidas nos dias mais tranquilos. A verdade é que p...

Você morreu todas as vezes que desejou

Instrumentalize.  Faça algo com todo esse ódio, com todo o veneno que te cabe. Não ouse deixar que ele destile e escoe sem rumo, à toa,  gratuito, como o sangue puro da tua menstruação que escorre pelas coxas até o ralo. É assim que você não se deixa ser vencida. Não podem te devorar dessa forma. Se você gostar da dor. Se você fingir que precisa dela. Continue. Sinta a dor, consuma, beba. Engula o sangue seco, deixe ele coagular na garganta. Seja a maior fã da tua morte.  À primeira vez que você viu sorrowing old man pensou: que ridículo. Como isso é arte. Como isso é qualquer coisa. Como isso é outra merda senão cores espatifadas numa tela, sem sentido, tom de malária, como isso é algo que não além de nada. E hoje, eras depois, no Ceará, aos 21. Você sentou da mesma forma, na mesma pose, e viveu. Viveu a tela. O homem amarelo ou ci...

non-acceptance

nada é maior que o reflexo. o espelho é predador nato, sorrateiro, mas não é dele a peçonha. o espelho é a terra da nudez e basta que as pontas recheadas dos meus dedos toquem-no pra que eu afunde no mais subterrâneo  golpeio com a testa essa mulher perversa e odiável que ousa me parear  me arrebento gosto de sangrar das cócegas das gotas,  essa é minha aceitação  uma mulher de cara estilhaçada tanto que já não existem quaisquer votos de beleza matei uma criança e uma adolescente e arrasto seus cadáveres desgastados são meus véu e grinalda  a memória se projeta desafiante  através do prisma das íris  transita entre meus sentidos e me conforta no irreversível,  no incorrigível,  de não haver a mais pretensa possibilidade  de receber o perdão e recomeçar.
abri mão querendo ser pega no colo mas ser muito pesada sempre foi um problema "os homens querem mulheres fortes" então aguentei todas as pancadas. esqueceram de mencionar que não era essa a tal fortaleza os homens não querem mulheres independentes porque isso os transformaria em meras e espontâneas escolhas  e não nessa necessidade e objetivo delegado a cada minúscula vagina detectada no ultrassom uma mulher nunca é o tipo de mulher barraqueira, vagabunda e louca que apanha, busca amarração ou rasteja uma mulher nunca é rival da outra  até que entende que possui essa incompletude inveterada depois da primeira infância  uma mulher nunca mais será  bonita o bastante depois de nascer  essa mulher nunca será muito mais do que bonita ou feia ou puta ou decente essa mulher nunca mais habitará  outro lugar senão os esgotos dos antônimos  sua vagi...

baby blue

semana passada ele cancelou comigo. voltei aflita, e meti em mim o que pude de comida como se isso pudesse sanar ou sarar o choro quem sabe compensar a ira. eu nunca tinha fumado num consultório. me preocupo com os outros. dos outros lados,  muito depois dos muros. você se preocupa com os outros? sim. eu fui sincera. eu sempre fui. e quis chorar de novo porque sei o quanto já rasguei pessoas  falhando sincera demais com o que queriam, mas não comigo mesma. quis ser real pra eles. não, eu não posso. não, eu não tenho. não, eu tenho de te dizer não.  ele, esse homem imenso, de mãos grossas, cruzadas atrás da cabeça, descalço e despreocupadamente largado no trono ébano  me enfiava os olhos de um jeito desconfortável, torto, eu ziguezagueava pelos planos, na decoração, no reflexo da mesa, nos saquinhos de chá, na bandeija com mussarela ainda meio chei...