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a você, quanto eu ainda estou eu.

  essa carta é pra você, enquanto ainda resta um pouco de mim, do que eu acredito que sou quando minimamente no controle. talvez você pense que é apenas antecipação sem evidências, que vai ficar tudo bem, que eu vou ser capaz de segurar as pontas. de qualquer forma, eu preciso me assegurar que você saiba de mim, de nós, no caso de eu perder novamente a cabeça. é possível que os sintomas me consumam de forma que eu me faça quase que irreconhecível; entendo que você não possa imaginar esse panorama porque, graças a "deus", não esteve aqui antes de eu me equilibrar um pouco. você me conheceu sob acompanhamento, quando as rédeas me mantinham no prumo, apesar dos momentos de pico e urgência. mas perto de como era antes, totalmente solta e sem capacidade de administrar as emoções e os comportamentos, todas as crises que você presenciou são irrisórias. tenho medo, estou com medo. não quero retornar ao estado que mais conheço, mas por favor, eu imploro que lembre, eu não tive escolha...

cavalos impressos

enquanto marchava em direção à forca donde em breve meus pés pêndulos frouxos no ar e meu corpo como um saco que se esvazia num estalo seco percebi a mesquinharia das minhas antigas angústias em que me doía por simplesmente doer sem objeto específico justificável eu sempre achei que as carências já presentes eram o bastante que não haveria de existir gravidade maior invejei aqueles que nascem em berços que ganham a vida previamente de graça me cobri de inteiro preto em cidade litorânea juntei na mochila todas as químicas possíveis e pretendia pendurar as pernas no décimo sétimo andar  enquanto o torpor me possuía como um demônio calado me arrependi de não ter deixado o desespero pra agora me toco de toda dor que não valeu seu sentido de todos os anos na cama pensando já ter alcançado o chão agora o chão evapora e eu não termino de cair ontem eu vim pra casa na traseira de uma bicicleta azul com um poeta de moletom ele me olhava fixo se alguém sentiu vergonha ou virou o rosto fui eu...

fático

  feito carícia no ar, una com ele, a dissolver- ausente de escândalos, carpidarias ou vestígios irresponsáveis como aquilo de caráter previamente sabido como perecível, e que portanto assume seu destino bem-vindo pelo éter. o deixar-de-ser da maneira mais volátil desmanchando a matéria pesada e feia não mais como alguma coisa qualquer que interpela o caminho, mas como partículas que se confundem obtusas com a poeira cotidiana, erguida das avenidas quando os carros correm apressados, e as pessoas passam com seus itinerários atribulados, enquanto me forço fosca indissociável do ambiente pluralício como o que ainda possui calcanhares e os gira de volta e em torno do princípio, antes que tais mesmos calcanhares fossem concebidos pelo ventre autoconsciente. que eu não implore mais por favor, pare. que eu não espere mais, por favor, mudança. que não mencionem mais que em mim o pudor era raiz e as chagas foram a flux, exatamente como foi esse corpo tudo o que já houve de...

[disponha]

  arrisco qual bala profusa em chamas contra o mais árido e mormaço desse horizonte urbano tremulante que só se permite no embaço minhas costas gritam socorro rouco aos rasgos e não há carapaça ou anatomia que resista cozinho enquanto cruzo esquina meio extinta de mim para ouvir o disparate perverso das buzinas (comunicam-se nessa língua os predadores sobre dois ou quatro membros) deles um papo vadio tripudiando sobre devorar aos grandes olhos uns regaços lobos regados de olhos escondidos lobos escondidos de olhos regados loucos regaços de olhos negados loucos negados nos olhos de lobo escondidos nos olhos regaços eu quero dizer ao disparate anônimo que ele não se daria se soubesse o que carrego nos bolsos do short camuflado (que não basta para disfarçar minhas coxas e mais acima mais ao meio. é isso que eles veem. uma parte pelo todo num esquartejamento maníaco) se soubessem que essa tala ortopédica falsa cobre a auto-injúria da deformidade paralela dos meus pulsos...

emanon,

  Emanon. eu morri de medo de você. sim, porque os pais sempre te usaram como mais uma das narrativas folclóricas para domesticar crianças no medo; era o “sim” compulsório, ou você. arquétipos montados duma fisionomia juramentada grotesca, aos poucos decaíram peça por peça, porque, no fim, você é sobre sedução. aos quinze eu te vi transpassando uma árvore que devia estar ali desde o início dos tempos, o Dito-cujo teria serpenteado naqueles galhos. clichês eram regra e por tal você usava um vestido preto, e o cabelo inacreditavelmente escuro era como uma coroa, muito leve, feita de anuns. eu delicadamente assisti você. e fingi ter me assustado. mais velhas você esqueceu propositalmente a luz do meu quarto acesa. me esgueirei pelo corredor e te descobri no centro exato do cômodo, sentada num banco vulgar, uma decoração própria de saudek. sua cabeça pendia como se da nuca falhassem vértebras e o cabelo cortinava o proibido. verbo foi assalto e não, eu não quereria a trivialidade d...

carvalhos

  quando eu voltar   quando eu voltar a mim e avançar até você —  ralando a derme até que os nervos, os nervos necrosem em ressonância e eu não sentir mais a fincada quando eu recuperar meu corpo aos miúdos e miolos  os olhos parecem ter sido os primeiros arrancados — um descanso da paisagem lúgubre em túnel  e dizem que meus lábios permanecem no rosto,  mas grotescamente selados com linha de pesca e deixaram os dentes pois que eu só mordia a mim mesma gentilmente espetadas numa árvore  impedidas de agredir  descansam minhas mãos  independentes meu pescoço aberto aos céus  o coração foi drenado e permaneceu em paz  tal qual um fantasma perolado, um cristal translúcido raro em bandeja metálica servido destacaram com precisão a orquídea  plantada entre as coxas para que eu não sentisse mais dor e não corresse mais perigo — apenas jus ao legado de sangue  desmembrada para que eu não mais me debata  entenda eu era em peda...

mencionemo-lo apenas como aquele / a quem não se pode referir

  não falaremos sobre ele. as crianças não precisam ser amedrontadas,  evitando em vão a ausência de luz  desconfiando de toda brecha,  gastando o repertório léxico de suas orações  rogando mais essa proteção a deus.  os adultos não precisam encher suas agendas com mais cuidados e  sua noite com mais benzos  os velhos não precisam de mais certeza  da finitude e  do desejo de abreviação não falaremos sobre ele, ponto.  falaremos sobre esse ponto não pronunciem o nome, sim,  exatamente como um demônio, e, em extrema necessidade,  censurem vogais, mesmo sílabas.  mencionemo-lo apenas como aquele  a quem não se pode referir e mesmo seu vocativo e potencial dêitico  serão quarentenados em redoma manteremos brutalmente cerrados os portões  às espessas correntes e mais  placas e pesos e obstáculos e corpos e promessas ousaremos enganar a besta até que ela duvide seu próprio poder tornar-nos-emos assim se...