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ridículo

ridículo é sobre ti escrever  ainda de pé e desnudada diante de, transbordante os arrepios na espinha, ré da tua confissão sobre um afeto embotado . e, quanto a isso, não te abordarei. jogo sobre os ombros meu manto de espinhos para te absolver de qualquer gérmen de ideia de dever para comigo. ridícula é tal euforia elétrica que me percorre e eriça os pelos mais ocultos  quando tua imagem estática, estéril, me aguarda frente ao portão. esqueço. o automático da respiração  esqueço. como se modulam os músculos das pernas para caminhar – e só conheço como usá-las  emaranhadas  ao redor da tua cintura. ridícula é minha alegria, doença autoimune, quanto ao teu fugaz e volátil e de soslaio olhar quando em ti estou  montada  (e desvendando, honrada, o mover meu que mais te apraz) rezando para que não tão veloz ele se dissipe e que algo dessa vista te agrade e, mais ridícula, convenço a mim, murmúrio ao pé da minha orelha, de que são provas suficientes micr...
venho esquecida de mim enquanto a flux, venho esquecida  restam, para me guiar, apenas contos populares, demasiadamente orais – com seus deslizes interrupções  e vícios de linguagem – daqueles que tangente riscaram,  daqueles que evadiram, aos apressados tropeços, do horizonte decrépito e ermo, da terra arrasada por uma guerra particular. os papéis de parede outrora delicados jazem descascados entre perfurações na alvenaria  de socos e chutes de quem quer ardentemente romper o acordo com a realidade e obliterar as trincheiras que construíram o presente. pequeninos feixes paralelos na estrutura,  são filhos de unhas roídas  gritando ao material alguma tirania do hábito. espelhos estilhaçados propositalmente, cujas molduras se mantêm  intactas. e suspensas  e as provas de vidro que não foram recolhidas, testemunhas do que se sucede ao pronunciar três vezes o próprio nome mediante reflexo. não havia como ver a mim.  em verdadeira forma, despid...
espero um pouco mais... deixa a voz ausente  sanar de sussurrar e os olhos se fazerem menos verdes. e minha mão adormecer da sensação  de deslizar sem nós pelo cabelo  rente à nuca recém cortado imaginei que eu o acompanharia crescer nos segundos que  sobre mim  você sorria e a realidade desandava, retorcida deixa que eu me assuma ré  por bramir o corpo demasiado atônito de  um sentir hiperativo, até mesmo estupendo e estúpido ; e por uma cabeça tão rígida que não decodifica o alheio como lógico, deitando-se a dormir sob a guilhotina miserável de nuances, só processa ou o incendiário ou o que foi reduzido a cinzas e qualquer outra vida do calor é mistério incognoscível  de modo que nunca nos sentaríamos ao redor de uma fogueira nem acenderíamos uma vela de aniversário  deixa que eu me ressinta  pela minha natureza de fugir antes da ordem de expulsão, de me empurrar ao pólo contrário onde ansiava enraizar o meu afeto. precavendo não me t...

do not resuscitate

os bilhetes nos bolsos  ou sobre móveis  são feitos de trivialidades e burocracias. não há nada romântico, poético ou estético dígitos de um documento,  números de telefone “não entre no quarto, não deixe que ele veja transfira meu dinheiro para sua conta no banco em caso de parada cardiorrespiratória, favor não ressuscitar doem os órgãos funcionais de resto, opto pela cremação  eu amo você como o que faço agora parece dizer o contrário  perdoem pela bagunça e pelo incômodo” perambulando pelo labirinto de metal com um acesso fincado na veia exigiram um familiar ou alguém que autorizasse minha saída  e tive a expressão órfã das mulheres que não têm quem as leve para casa que não têm nem mesmo casa e essa veia conectada  traduz o silêncio  e a solidão que precede o auto extermínio em massa  a evidência sucessivamente reiterada  de que não há viv’alma a comunicar antes que esteja feito eu quis te ligar, ainda que relutante, mas, com certo e...
mastiguei a expressão proibida pensando que bom que estou sóbria  e que trágico  que algo tão nobre, pra ti, se vista de exigência  salpiquei de beijos as tuas sardas nos ombros  achei que seria o suficiente para você perceber  não se beija assim  com tanto cuidado e deferência  as sardas nos ombros de alguém provavelmente já sabia, sim e fingia que não para se manter em segurança  era óbvio para qualquer um que me olhasse ao teu redor, óbvio como o que não carece de ser dito, mas continuamente é, por trás dos lábios  que se sepultam em carícias  por toda a extensão do teu rosto comove-me o menor dos gestos  que comunique uma nascente morna de afeto havia música estridente mas a casa calou enquanto eu te contemplava absorvido precisava lamber teu suor fino levemente salgado  precisava beijar solenemente  centímetros impopulares de ti precisava me sublimar  na tua sombra precisava estar descalça  sobre teu chã...
"não deveria ser assim" – apesar de tal certeza, é como  se o mundo risse  à beça   através do trânsito  do trabalho da natureza do metabolismo da tua habilidade indiscutível de desejar alteridades ao continuarem, todos eles, a despeito – teu olhar-umbral onde eu espectrava a colher ervas daninhas floreadas de espinhos e fazê-las enfeites  mas são inocentes as horas e ainda que pareça imperdoável  nada me deve a vida no entanto, procuro  na expressão dessa gente toda  um traço que seja que ressoe  com o meu Desespero dissimulado com a minha Solidão abarrotada e possa eu me encontrar pertencente por um ínfimo momento e você também continua,  capaz e apressado, bebe e fode e ri tanto quanto  qualquer um porque não me deve nada não há a quem me queixar – é o que é  mas não deveria ser não me cabe exigir  meus quereres um dia distante eu drenaria meu sangue para que teus órgãos  cumprissem suas funções   com e...
quase lambi   num hábito fosco os mamilos do homem acima de mim e aquela ali, amanhecendo escura na cama de um estranho, é uma versão minha que  você tinha curado   as línguas apenas avulsas se desencontrando  num ponto crítico  – sem retorno e as mãos de um outro que  gentilmente me acariciavam,  eu interrompi para checar que não havia os músculos  que as suas cultivaram de tanto tocar algo que não sou mais eu agora me disperso tão podre  quanto você  enfim compatíveis, podemos disputar pecados hediondos até que empoeirem me pergunto como é possível  sobreviver qualquer desejo pelo alheio logo após conhecer o Amor por alguém  – sobreviver – – coisa essa em que só você  é perito sempre espero te encontrar  escorado às portas dos ambientes  em inanição do abraço não ensaiado no interior de onde se dissolveria o mundo a playlist no modo aleatório trouxe aquela banda dos anos 80 que você adora e eu apertei os olh...