BLAS(FÊMEA)
A sensação era a de que eu mal tinha cerrado os olhos. O maldito Éden zuadento começava sua rotina muito cedo, cedo demais pra que eu descansasse o suficiente. Adão idiota roncava baixinho ao meu lado, sob a sombra de uma palmeira, agora que o sol ameaçava atacar mais incisivo. Sua ereção matinal congelava o pinto num convite. Eca, eu disse quase involuntária. Me ergui sem cuidado de ser silenciosa, sacudi as folhas do corpo, arrastei os pés até um rio qualquer. A mesma paisagem, a mesma pessoa.
Um pouco mais e lá vinha a voz trovoada me condenando o mau humor; se fosse você também reclamaria, eu respondia. E ele ficava furioso, aquela ira cheia apenas de "mas você não vê tudo que te dei?", porque nesse primeiro testamento deus só vivia puto mesmo e é no segundo que ele lembra "ah é, o tal do amor". Minha pele frágil agradeceu languidamente a suave conquista da profundeza do rio; era um afluente calmo dele, que começava um horizonte depois. Brinquei com os bichinhos peixinhos os prendendo na mão em concha. Lisos, escorregadios, meio nojentos. Detestava essas criaturas aquáticas de corpo gosmento.
Sentia as pontas ressequidas do cabelo ferrugem alcançando as covinhas da bunda. Meu ventre liso eu lutava para assim preservar, uma vez que Adão O Idiota era insistente e amparado pela obsessão de deus por essa matemática de multiplicação. E eu cá com minhas sardas, mas já há tantos desses anjinhos babacas, já há dois humanos fazendo grandes bosta nenhuma por aqui, o que mais ele quer? deus andava mesmo era entediado de ser deus e ficar pairando solitário por aí, como uma nuvem carrancuda. Eu tinha uma certa dó e já não contestava tanto sua mania de construir teatros sob um céu vastíssimo e, veja só, também arquitetado por ele (ele muito se gabava de ter feito tudo em sete dias e repetia e repetia eu queria que meus ouvidos explodissem). Eu era repreendida o tempo todo, olha os modos mocinha, ele dizia, mas você é um pai ausente, eu pensava. Nem por aqui passa, embora viva de espiar. Não sabe o que é ter de aturar Adão, nessa puberdade avassaladora, querendo meter o pinto em tudo, feito britadeira. Consenti algumas poucas vezes e descobri reações estranhas, um tanto mais profundas que o incômodo, dei o nome de dor. Não apenas física, já que Adão só queria esporrar em algo e para isso enfiava forte demais ignorando meus protestos. Era Dor, esse troço que penetrava os tumultos da carne (que eu sabia nua, embora os contemporâneos digam que não, eu que não via problema e apreciava a liberdade) e alcançava os aspectos mais intrínsecos dos meus pensamentos, se nidando tão-dentro onde eles parecem nascer. Não quero, me brotou difusa essa impressão, e depois rasgou os véus da dúvida. Não quero, eu soube, não quero, eu disse a Adão quando ele rolou para cima de mim um dia de contornos laranjas, a luz líquida inundando os animais trepando. Mas como...? ele balbuciou, rindo, sem dar prosseguimento à frase ou à minha vontade e tentou uma, duas, cinco vezes, até que lhe desci o tapa na cara e gritei por deus que devia estar assistindo tudo muito curioso pelo desenlace. Faça alguma coisa, eu lhe disse, e ele me vinha com essa baboseira de livre-arbítrio que na verdade queria dizer se virem.
Quando o céu assumia aqueles tons anuns e as estrelas como os pontos que tenho no colo e nos braços, Adão dava início ao meu martírio de ser invadida. Resistia o quanto podia e sentia os olhos bárbaros de deus por aí levitando, como se apoiasse as colossais mãos sagradas no queixo – espectador nato – tivesse ele mãos e soubesse ele o que é ter um corpo, ainda que cedido (como o meu), mas um corpo passível de ser violado. Adão se apoiava por cima, eu pelejava para assumir ao menos um mínimo controle por dignidade mesmo, mas ele me prendia sob o dorso rijo e me enfiava o pênis insistente. E era a mesma ladainha de grunhidos graves, eu no chão remexendo a terra, os joelhos a se arreganharem mais e mais quase rangendo. Travava os lábios impuros de súplicas. Mas a nós foi incumbida a responsabilidade de gerar mais de nós. Temia pelas meninas que sucederiam do meu abdome. Pobres coitadas caídas na relva, enterradas a cada estocada. Ele gemia o final e jogava o peso do alívio para o lado. Eu levantava meio esquecida dos estágios de ficar ereta e buscava a corrente mais próxima, sentindo a gosma morna me escapar aos poucos, como se minha vagina enjoada vomitasse o que lhe foi obrigado a ingerir. A gosma morna pregando as coxas. Mergulhava despreocupada da temperatura. E enfiava dedos nos buracos tentando me desculpar comigo e reverter os vestígios. Não quero, eu contava pra deus, e ele silêncio. Mas eu sabia de seu voyeurismo autoritário.
A situação se prolongava e eu intimamente revoltada passei a rosnar nãos. Arranhava Adão com as garras que não tinha e ele e deus compactuavam que eu andava malcriada. Eu sabia que uma represália não tardaria e já ouvira falar dos milhares de rebeldes confinados num submundo insalubre, procriando por acaso mesmo, porque as leis eram o prazer e a contestação. Adão batia punhetas intermináveis e recorria às éguas selvagens, mas não tão selvagens e letais quanto ele. A deus aquele panorama já não interessava mais e ele queria mais ação. Uma noite qualquer apenas me ordenou que deixasse o lar e buscasse meus iguais. Mal passei pelos portões e as fisgadas me lancinaram como nunca, os pés que descalços sangravam as rachaduras, o frio que endurecia os mamilos, meu cabelo uma coleção de nós palhosos e irreparáveis. Os Caídos (na verdade, Derrubados) pouco me notaram, feridos pelo abandono e a orfandade. Mutilados, o ódio lhes acalentava as lacunas de por quês.
Como um déspota que tem seu orgulho ameaçado, deus me apresentou o corpo que eu julgava conhecer como uma sucursal do inferno. Pari sozinha ao relento abafado os rebentos já condenados a parasitarem o sono humano e serem por todos odiados. A equação divina me dividia rasgada uterinamente. O disparate do Pai não tinha limites nem pudor; tentei mesmo perdoá-lo culpando a idade e a solidão. Já não bastasse essa árdua tarefa e estarem as coisas como estavam, eis que me chega o boato da criação de Eva. Modelada de uma ínfima costela, ele lhe fizera emburrecida. A ela foi jurado que não passava de um instrumento disposto a cumprir uma função: povoar, por uma só buceta, o milagre desse mundo cu. E era isso, éramos receptáculos passíveis de descarte.
Eva era uma esposinha fiel e cálida dada sua inocência tipicamente pueril e cativa e de tudo muito fazia para agradar seus amores. Antes de saber a própria cara repetia EUVOSAMO como um papagaio adestrado. Eu lhe tinha uma imensa dó. Aquela pequena silhueta banhada de cascatas douradas me parecia tão primitiva e tosca que me despertara uma nova natureza da emoção; queria protegê-la, unir-me a ela que decerto saberia as amarguras dessa carne específica que assumíamos sem permissão.
Fomos eu e Lúcifer, o mais menino e inconformado dos irmãos, nos pendurar pelos galhos da macieira que os vertia por sobre os imponentes portões. E rasgando o couro em alguns pontos, consegui ficar ali, empoleirada, até ganhar a aproximação ao acaso de Eva, exploradora. Contei-lhe cada verbo e ela chorou brevemente, como criança contrariada. Uma vez sabida a verdade, é claro que Adão se emputecera, me escarnecendo os atos imorais e me pesando a mão na bochecha. Meti-lhe uma segura joelhada em seu precioso troféu sacro, Eva lhe cuspiu o rosto contorcido de dor e ódio e descemos até os limites do paraíso. deus, que de tudo sabia em primeira mão, sacudiu a cabeça inexistente em um tsc tsc de desaprovação pelo filho ignóbil lhe custar duas escravas; expulsou-o também e aos melindres Adão saiu de pinto e ego flácidos.
Demorou um pouco para que descobríssemos que duas mulheres não geravam filhos - malandra sacada de deus pra que recorrêssemos a Adão. Mas eu e Eva desejávamos muito bebês que compusessem a humanidade, dessa vez em gênesis por amor. Naturalmente tivemos de usar Adão para concluir o plano. Mas dois ventres pensam melhor do que um, e assim criamos o mundo. O Pai vivia ranzinza, mascando seus tradicionalismos, mandando tempestades, de leste a oeste em sua cadeira de balanço imaginária.
Lilitu, qualquer milênio desses ele leva a sério aquelas histórias do dilúvio e da guerra, Eva sussurrava, o cenho franzido.
Deixa ele, eu respondia mascarando a preocupação, isso tudo é pura histeria...