Não consigo agora, e calei fitando. Foi o que mais fiz dessa vida. Calar fitando. E esperava sempre algum tipo de resolução imediata da outra parte sentada no extremo oposto da mesa. Que intercedesse nesse meu silêncio. Que me alforriasse dessa tarefa de mastigar na retina.
Mas nada nunca.
Mas nada nunca se seguiu assim.
Não queria não.
Não queria não, mas fiz. Corrijo. Deixei que se fizesse.
E manchei meu progresso com escapes.
Estar no controle era o que eu tinha, e de repente não era mais. Palhaça, conversadora, leve. Um engano com fim em si mesmo, eu me dei um jeito.
Minha verborragia sob aquela pretensiosa luz negra não era senão o calar supremo. Ali eu manipulava o carpir jurando que ele não tinha razão de existir e em casa tinha de chamar o choro.
Eu fui. Palhaça conversadora leve. O mascote entre seus amigos. Confidente da sua mãe. Piada do seu irmão. Companhia de junk food, de porre, de cólera ao coletivo. Teu mais-tarde, teu um-pouco. Fui todas as outras antes pra poder me tornar o que você amava. Mas isso nunca aconteceu e eu continuei tentando dominar todos os outros papéis até que vi que aquela multifaceta fragmentada mal tinha traços meus. Esse rosto não te era nem familiar.
Não consigo agora -
Os olhos engrandeciam, mas ninguém me via melhor, e depois do por do sol era a mesma história. Eu histeria, e eu explico: a histeria coisa-mesma, não histérica a qualificação, tem algo mais absorvente que culpa??? Vai tomando tudo, comendo pelas beiradas, chega ao âmago e você nem se dá conta. Eu não dou conta de mim nessa altura da noite. E foi por isso que caí no desuso de sensatez.
Acordo a boca seca, desértica, não constam semas suaves pra solidão. Paro a vista nas pessoas se querendo. É bonito. Mas eu nao faço nada além de olhar, não pertenço.
E se empilham de novo as justificativas: talvez seja esse corpo. Vestido às pressas, à contragosto. Talvez seja esse pessimismo nada atraente, essa carência que eu declaro sem vergonha. Talvez seja, talvez fosse.
Sempre peco ao chegar em casa. A maioria das pessoas só chega e suspira pelo enfim descanso. Já eu visito o outro lado da rua e apenas me certifico do que já sei sem nem mesmo conferir. Só o meio fio e a calçada, asfalto e concreto.
Subo só e isso não deveria me afetar, já que estamos todos. Mas me arranco pelo a pelo, raciocino os pulsos agora incólumes, o reflexo sempre outro do que eu imagino, as chances de isso mudar. Agora até mesmo as palavras vêm intoxicadas por dentro e padecem antes de se cumprirem em discurso.
Não consigo mais nem mesmo dizer.
Várias vidas atrás, em criança, uma das minhas alegrias mais sinceras era descrever cenários. Será por isso que eu virei esse corpo nada mais que retrato fiel de tudo o que morreu até aqui? E agora eu desconheço em língua as sensações, os últimos socorros, as providências, as razões, nem mesmo as desculpas. Tudo é sem referente, não me faço possível.
Mas ainda lembro como mover uns sentidos mais primitivos pro código. Como o frio do ferro na minha mão esquerda agora, e a outra se habituando à borracha do cabo. Me rio lamentando por acharem que algo assim é tão burocrático - o acesso, o ato, o porquê. Essa coletânea vil de últimos instantes quer me convencer, mas eu já me curvei a ela outras tantas vezes o suficiente para saber que é um mero mecanismo de preservação. Isso de recomeçar é uma farsa quando é desespero travestido.
A boca deserta aberta, o céu engolindo o frio. Mãos que suam e morfemas. Estar no controle era o que eu tinha, e de repente eu tinha absoluto, em duas flexões dos dedos apenas.
Do outro lado da rua, ainda concreto e asfalto.