ventre vago

Já adianto que sou puta.

Não tem pra "mulher da vida" que isso aqui não é nada parecido com vida não. "Prostituta" me embola a língua, pra que essa frescura de encompridar as coisas? Mania de rico pra falar direito do que é feio, pra se distanciar mais dessas desgraças de rua.

Sou puta desde que tive meio das pernas pra ser; pode desarregalar esses olhos que aqui nos arredores do mangue isso é muito é do comum. Minha mãe era também. Como tu acha que comecei? Tem que ter alguém né. Sem orientação você não dura um mês, tem que entender dos macetes, o perigo vem dos dois sentidos: dos homens e das outras meninas que disputam esse espaço contigo - e um cliente é comida, mulher. Você com essa expressão condenadora, sacudindo a cabeça muito moralmente, me responde o que é que a gente faz com a fome. Hein? 

Puritanismo não dá sustança. Fechar as pernas ainda me deixa de boca aberta, esperando colherada da marmita que eu não posso pagar. O que é que a gente faz com a fome? Indecente e vulgar pra mim é essa dor oca que parece sugar minhas tripas pra dentro delas mesmas. Você não me responde porque não existe mesmo saída e se sentisse isso também faria escambo da única coisa que tem.

Mas é mais, sabe... de uns tempos pra cá. É mais que a buceta. É a alma.

Eu já tô velha, tenho tentado me enfiar nos sinais, mas é onde ficam as crianças e as mulheres com as crianças e é lógico que ninguém vai me dar o trocado que poderia dar pra Emanuelle segurando o bebê da Daiane. Ela pegou hoje. Menino tem um bocado, mas bonitinho como o da Daiane é novidade, ela deu bastante leite, e ele ficou até gordinho, cara de cuidado. Não é queimado e seco como esses que circulam entre os carros, as mãos tao miúdas e magras que parecem uma garrinha negra estendendo uma caixa de balas baratas, só 1 real pr'eu comprar comida, tio, e as vezes até dá certo, tamanha pena evocam pelos beiços pálidos, os olhos fundos, o tom amarelado como quem desbota perto da morte, as costelas apontando. E então a Daiane faz comércio da criança. Pro inferno com a ética. Não existe essa de  ética num cenário tão deteriorado. As duas se ajudam mutuamente. Não se pode deixar por isso mesmo?

Já quase nos meus 30, sou a opção sempre depois - eles preferem as novinhas e aqui é um cardápio delas. Assim que comecei também. Eles até pagam mais pelas que não menstruaram ainda, e a família que acerta adora, claro, não precisa se preocupar com bucho. E quando pega? É assim mesmo, como doença. É, ué, a gente aborta ou a gente pare. Mas esse negócio de aborto, embora seja uma mão na roda, é complicado demais. Achar o chá, o remédio, quem faz, sei lá mais o que, e dói pra um caralho, você fica sangrando depois, atrapalha o trabalho por semanas, eu acho burrice. Ja vi menina indo pro hospital porque tava com o resto do bebê na barriga e não voltar mais.

Meus seis filhos eu levei sem esse dengo atual de consulta ultrassom pré-natal vitamina etc. Como era no passado mesmo e ninguém botava boneco. Pari todos normais, ao menos à primeira vista, vendi quatro e dei dois. Isso de criar filho não é comigo, eu já mal me aguento, quanto mais outra pessoa, ainda mais menino novo. E voce vai dizer que sou uma mulher desprezível por isso, monstruosa, uma mãe imunda? Esses meus filhos devem estar todos sendo é muito dos bem criados e obrigada, barriga cheia, comendo na hora certa, pão com recheio e nescau e tudo, asseados, cheirando bem, estudando, fazendo enem, até indo pra uma faculdade quem sabe. Eu não sei, nem quero. Nunca me pertenceram.

Eu sempre achei engraçado como as pessoas juntam mulher e mãe numa coisa só, e tornam muito bonito e cheio de amor, amor, amor. Outro que não enche barriga. Como se poder parir significasse querer e dever. Mas bem. Eu digo que passo tempos sem nem lembrar que já existiram dentro de mim. Quando a gente tem uma vida dessas, tem muito mais pra se preocupar do que com o filho que poupou desse sofrimento. E daí que não foi cuidado por mim, nem chegou a me conhecer? O que é que ele perde?

Eu não tenho porquê me culpar. Já tem você pra isso. Enquanto eu tô tentando fazer meu dinheiro.

Você me chamando de puta e eu sim senhora sendo puta. O que você quer? Que eu seja uma mulher de vergonha, com marido e emprego? Você teria que lá atrás me comprar da minha mãe e começar daí. Como quer mudar algo agora, quando eu já apodreci nessa rotina? Porque aqui, meu benzinho, não existem essas chances. Homem aqui já vem com o caralho apontando e nem sempre as dez pilas na mão. E pra ele a gente é buraco quente pra meter. Emprego aqui é só essa feira de carcaças que você contempla torcendo o nariz, escandalizada. E a vida é essa, confundida com a morte. Eu lamento mais por você do que por mim. Você parece meio enjoada, como se fosse cair dura de desgosto, e eu passei dessa fase ainda adolescente.

A Joana apareceu aqui outro dia com essa menina. Deve ter seus 15 anos, bem encabuladinha, os olhos no chão. E desde então as vacas têm emagrecido mais. Ela é clarinha, mulatinha mesmo, o cabelo escorrido. Os homens adoram isso de nao ser muito preta. Ela solta os cabelos, que são bem compridos, quase na bunda, e mesmo ensebados e mal cuidados chamam a atenção dos motoristas que vão parando, devagarinho no meio fio, ela mal descansa esses cambitos finos, vai batendo porta a porta dos carros ou se enveredando pelos matos. Magrela, ela. Corpo de menina. É porque é. Por isso eles param. 

Logo ela vai estar moída e troncha como todas nós. Aidética como muitas aqui, as canelas sumidas mal sustentando o peso do esqueleto, essas feridas nas mãos e ao redor da boca, como traço distintivo da nossa miséria. O programa por duas pedras, pra poder aguentar a noite.

Ela tem incomodado, ora, tem dezenas de mulheres zumbis aqui precisando dum programa e eles ja vêm perguntando por ela. Hoje depois do meio dia, quando o sol é tão insuportável que a gente não consegue pirulitar pela avenida, ouvi a Emanuelle comentando com mais umas seis ou sete meninas que era hora de dar um jeito nisso e eu sei bem o jeito que elas vão dar.

Dia desses a gente vai acabar tropeçando no corpo da menina jogado dentro do mangue, espancado, furado, o cabelo cortado, muito pálida e fedendo, o cheiro se unindo ao do ambiente formando um todo que traumatizaria qualquer um, mas não a nós, porque não temos direito de caber na categoria humana, e já somos domesticadas  nessas imagens de violência extrema desde quando deveríamos ser mais inocentes.

Aqueles que tiverem olhos pra ver, que vejam, já dizia Jesus - em quem eu não acredito muito porque ja muito pedi e fui esquecida, mas por quem ainda tenho uma sutil simpatia porque preferia andar com puta feito eu. A gente é de verdade, e ele sabia disso. Talvez por isso escolham não nos ver.

Mas com Jesus, sem Jesus. Eu ainda sinto fome, mulher. E isso... isso nunca passa...

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