IMANÊNCIA. 26/02/19
onde você vai
eu não posso ir
eu tenho esses pés de vidro
e meus pêsames
meu cabelo cai
numa cascata sem volta
onde eu vou
há um rastro doirado
brilhante e sedoso
de perda e saudade
tenho sido apressada:
mais rápida que a morte
enquanto ainda me movo
minha matéria deteriora
violácea e
cor de adeus não dado
lindos suicídios ensaiados
em segredo
como quem trama contra
o todo poderoso
com licença -
minha voz se esguia entre
discursos de jovens atores
apaixonados pela ideia
de dor
e não encontra forma
e não encontra ar
essa doença tem fantasia
de poema ruim, de moda do século
de desculpa
nao aceita
essa doença sem face
entre eu e o mundo,
a enfermidade,
me encapando os sentidos
todas minhas vontades
em cárceres
e os outros, os outros quaisquer...
são sempre mais verdes...
não há um discurso objetivo,
uma correspondência mínima entre
minha súplica e as palavras
e essa carne
por onde grito
me ignora
e não para de se predar
eu não tenho mais tamanho
para ser amada assim
esse abuso das incógnitas na minha cabeça
contra todo resto de mim
é pornográfico. é hediondo
não sei o que aqui queimou
passou do ponto ou nem chegou
não sei o que é tão maldito e diferente
como combater se não dá pra saber
tocar ou ver
o inimigo
essa serpente necrófaga
de botes esparsos
engolindo um pouco mais
imanência
eu quero a chuva mas
ser eu exige desquerer
os pingos-balas
pois, meu corpo tenso
como eu poderia desdenhar
da minha aparência esmagada
se ninguém opta por ver o que há depois dela
e de mim cumprimenta apenas
largos nacos de carne não ingeríveis
ralos pelos quebradiços
olhos sepultados sem cerimônia
e isso devora meu tempo
me arrastando primeiro ao final comum -
elaborando esse nunca-mais
quando na verdade eu quero me misturar
à multidão enrolada à vida
cumprindo obrigações
chorando o salário
e a mula do presidente nos jornais
e o plano ainda doce de ter filhos
e o milagre de ser amada
e se eu não tivesse massa
ou forma tamanho traço
se eu fosse só esse produto
abstrato e acrônico
sem grades de pele
impalpável em déboulés
através do que jamais fora permitido
a um animal
a um humano
a um cidadão
a uma mulher
a um borderline
eu verme social
cancro emocional
como seria me ter?
na séria urgência de existir
e se eu pudesse voltar
e ser um algo qualquer de medíocre consciência
ou uma outra pessoa
de engrenagens prototípicas
servindo à cadeia
ao estado, à espécie
elemento de um grupo, requerida nele
ou enfim a árdua conquista
do não-ser-mais
essa praga tão imperiosa
contamina com o sofrimento
qualquer um que se arrisque a testemunhá-la
salgada - escarlate e transpiração
esse terreno é infértil
e nada vinga.
tudo o que apontou
tudo o que era meu
eu tive de abandonar e assistir desfazer-se
em tempestade
tudo tem essa cara de último momento
e prosseguir com a vida parece
procrastinar
adiar o óbvio
o inevitável
nunca se está segura
- esse corpo minado
amar alguém é ter de se preparar
pra perdê-lo
por ser uma bagunça insalubre
e má, mesmo sem querer,
irreversivelmente sem salvação
e o amor deve ficar apenas para aqueles
que podem cuidar dele
insônia que mora na culpa,
as memórias ocupam muito espaço
no que fere.
não
há
intervalo
de vez em nunca eu me apareço
resplandecente e alheia ao cazumbi que me acabei
tento tento me agarrar
- fique e seja, fique e seja,
mas dedos são pouco e
eu não tenho mais unhas pra cravar
imanência.
essa fronteira
não está de
passagem.